Hoje vou-vos falar de autotomia da cauda, nos répteis! Que nome estranho, não é? Sabes o que significa ou nunca ouviste tal coisa? Se não fazes ideia de qual o significado desta palavra, ou se queres saber mais sobre os répteis, continua a ler, porque neste artigo vais ficar a descobrir que mecanismo espetacular é este!

Bom, se te disser que existem animais com capacidades de regenerar partes do corpo, já sou capaz de ter a tua atenção. Não? E se te perguntar se já observaste uma osga a perder a cauda, e essa já separada do corpo a continuar a mover-se por espasmos musculares? Isso é nada mais nada menos que a autotomia da cauda! Uma amputação voluntária, neste caso da cauda! Pois é, este mecanismo peculiar serve de defesa, uma defesa bastante inteligente e subtil, estes répteis desfazem-se da cauda e o predador fica por momentos intrigado e perde o tempo necessário a observá-la, pois esta continua a mexer-se, enquanto o réptil escapa. Muito matreiros, de facto. A natureza é mesmo fantástica. Mas afinal, como funciona este mecanismo? Na verdade os animais que conseguem amputar a sua cauda, apresentam diversos planos de fratura nas suas vértebras, o que cria um ponto fraco ao nível do qual os músculos e os vasos sanguíneos estão também ligeiramente modificados, aquando da quebra, os vasos sanguíneos da zona da fratura vedam evitando as perdas de sangue. Este evento pode ter bastantes consequências para o animal, funções como o equilíbrio, camuflagem, reservatório de gordura, nomeadamente em épocas mais críticas, locomoção, estatuto social e reprodução ficam bastante comprometidas, devido à ausência durante um período de tempo de uma parte do seu corpo, bastante importante. Posteriormente a este evento ocorrer, os lagartos providos de autotomia conseguem regenerar a sua cauda! A coloração do membro regenerado é muitas vezes bastante distinguível do resto do corpo.

Françoise.Serre COLLET / Herpetologista no MNHN em Paris

Olá “Reptilario de Aveiro”, aqui está a foto de um Hemidactyl verrucoso que ilustra a autotomia no meu livro “Dans la peau des lézards de France“.   Copyright da foto: Françoise.Serre COLLET / Herpetologista no MNHN em Paris

Atenção que a cauda não pode ser separada do resto do corpo de qualquer maneira, pois se pensarmos nisto, quando magoamos uma unha e ela cai, volta a nascer uma nova, no entanto se ficarmos sem um dedo, este não volta a regenerar. O mesmo ocorre nos lagartos, se a cauda não for amputada por um plano de fratura, esta tem poucas hipóteses de vir a regenerar-se. A regeneração da cauda absorve uma importante fonte de energia, e muitas vezes estes animais não a podem dispor, pois têm prioridades onde necessitam dessa fonte, nomeadamente a reprodução, nas fêmeas. Será que todos os lagartos conseguem fazer esta magia? Não. Nem todos conseguem, de facto, dos lagartos, nem todas as espécies são capazes de autotomia, dou-vos exemplo do varano e do camaleão, estes não possuem esta habilidade, por outro lado temos espécies como por exemplo, a Osga-comum (Tarentola mauritanica), a Lagartixa-ibérica (Podarcis hispânica), o lagarto (Anolis carolinensis), o Teiú-gigante (Salvator merianae) que são dotados desta característica interessante, e muitas vezes decisiva quando confrontados com um predador. Para além dos lagartos, também existem serpentes, apenas algumas, não todas, que desenvolvem um comportamento defensivo relativamente parecido ao dos lagartos, no entanto, não sofrem regeneração.

Se algum dia tiveres que pegar num destes animais, tem cuidado da maneira como pegas, pois podes desencadear este mecanismo de defesa e fazê-los perder a cauda, quando na realidade não era necessário, e estes podem vir a precisar deste trunfo mais tarde e já não o poderão usar, é de referir também que no decorrer da regeneração, estes animais estão num período mais crítico e vulnerável ficando muito mais expostos a eventuais perigos. Tem isso em consideração da próxima vez, e protege estes seres vivos, que são muito importantes para o equilíbrio dos ecossistemas que integram, sim, e para nós, Humanos, também!

Fica a saber mais nos próximos artigos do reptilário de Aveiro!

 

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