Uma pequena definição: ofídios é o nome dado ao grupo que integra todas as serpentes.

Agora uma questão: já estiveste algum tempo intrigado a observar quer ao vivo ou em documentários, uma serpente a ingerir um animal que nunca pensaste que caberia sequer na sua boca?! E ficaste surpreendido quando percebeste que além do animal conseguir fazer isso, ele também o consegue digerir inteiro? E muitas vezes, vivo? Será que eles não se magoam quando se alimentam? Mas a principal questão, como é que?! Como é que conseguem? É isso que vamos ficar a descobrir neste artigo!

Nos audazes ofídios se a presa for, por exemplo, um roedor como uma ratazana, em que o réptil também se tem que proteger de uma eventual mordedura, este tem que matar a presa antes de a começar a deglutir, quer seja por inocular veneno, estrangulamento ou mesmo por uma mordedura poderosa. No entanto, se estivermos a falar de um anfíbio, por exemplo uma rã, o réptil pode engolir a presa viva e é isso que habitualmente faz. Há que ter atenção que algumas presas também podem conter veneno, e aí é necessário o animal ou ser imune, ou em alguns casos matá-la primeiro, ou simplesmente evitar predá-la. Para ocorrer o processo de alimentação é necessário existir uma grande flexibilidade, a pele destes répteis consegue distender-se fortemente à medida que a presa é ingerida, e aqui há uma vantagem a ter em conta, o facto de os ofídios serem desprovidos de cintura escapular, elemento que os vertebrados com membros anteriores têm, sendo ausente esta característica, o alimento tem “livre acesso” ao esófago. Então e como é que as costelas deixam isto acontecer? Estas são bastante móveis, pois mais uma vez, não têm o osso que, na maioria dos animais, as fixa, chamado de esterno.

Se reparares nos dentes das serpentes, estes normalmente fazem uma forma de “vírgula”, o que lhes permite reter as presas na boca, sem que estas consigam escapar, pois têm ganchos presos no seu corpo – os dentes afiados, enquanto o réptil lentamente as arrasta cada vez mais para dentro. Além disso, em algumas espécies, os ossos maxilares e pré-maxilares estão ligados ao crânio por músculos, o que lhes permite independente mobilidade uns dos outros. As mandíbulas estão presas uma à outra por músculos e ligamentos, não sendo soldadas, quando estão a alimentar-se elas movem as mandíbulas para um lado e depois para o outro, penetrando com os dentes do lado direito a presa, e depois passando para o outro lado, deixando os dentes agarrarem a presa mais um pouco, e assim sucessivamente até conseguirem deglutir todo o animal. Isto leva tempo, é preciso precisão e paciência, quanto maior o animal, mais demorado será o processo. A maxila inferior e a maxila superior estão unidas por um ligamento elástico, que se distende para permitir uma maior facilidade em expandir a sua boca quando se estão a alimentar. Então e será que todas as estruturas engolidas pelos ofídios são digeridas pelos seus poderosos sucos digestivos? A resposta é não. No entanto, há que notar que os ossos sofrem desmineralização e são despedaçados pelo organismo. A questão é que muitas espécies são predadoras de aves, e estas têm o corpo coberto de penas, o que não é algo fácil de digerir, então como fazem para se livrar deste tipo de elementos de que não necessitam e não conseguem digerir? Na maioria dos casos saem nas fezes.

E agora um exemplo bastante curioso… sabias que existe um grupo muito particular de ofídios que se alimentam de ovos? Pelo que nestes animais, os seus dentes têm necessariamente que ser reduzidos, pois não são tão necessários como se estas se alimentassem de aves ou anfíbios, como as que já referi. No entanto, têm que ter outras especializações, como um grande número de glândulas que secreta saliva com o intuito de lubrificar a casca de ovo, para que seja mais fácil de engolir. Após devorar o ovo, esta tem outro problema, como é que retira dele os nutrientes que necessita? Para isso tem espigões especializados que vão partir o ovo, quando esta encurva o pescoço, contraindo os músculos do esófago, esmagando a casca. A partir daqui, regurgita o que não necessita, a casca, e absorve os nutrientes que precisa. Dou-vos exemplo de uma espécie com estas características, a cobra-comedoura-de-ovos (Dasypeltis scabra), habitante do continente Africano. Uma caçadora venenosa é a cobra-real (Ophiophagus hannah), também conhecida por “comedora de cobras”, sim, exatamente! Podemos dizer que é um réptil canibal. Aqui há uma questão que se coloca, quando a presa tem praticamente o mesmo tamanho e a forma do predador, quando ingerida, como alojam o alimento? O estômago pode alargar, quando necessário, este expande para os lados, acomodando a refeição. Por vezes pode acontecer um animal ser dotado de um veneno altamente letal, e no entanto não ser capaz de se alimentar da presa, como por exemplo a mamba-negra (Dendroaspis polylepis) é capaz de matar um leão africano (Panthera leo), mas não o consegue ingerir. Por outro lado, existem ofídios que por não conseguirem abrir a boca em ângulos maiores que 90°, consomem pequenas presas.

Sabias que as anacondas são ótimas nadadoras? Conheces por exemplo a anaconda-verde (Eunectes murinus) que pode pesar 250kg? Um corpo volumoso que impõe desde logo respeito. Estas ágeis predadoras conseguem caçar dentro de água! Uma das suas presas pode aproximar-se para saciar a sede, como uma capivara (Hydrochoerus hydrochaeris), se estiver na mira do réptil, a presa é posteriormente asfixiada por constrição. Podem levar horas a engolir a sua refeição e mais de uma semana a digeri-la. No meio da mandíbula superior da anaconda estão duas fileiras de dentes apontados para trás, podem mover-se independentemente, mordendo a presa e ajudando a mover a cabeça do réptil para cima e para baixo. Após uma refeição deste calibre, estes animais podem ficar sem comer durante bastante tempo! Devido à corpulência das presas que ingerem e ao metabolismo lento, evitando estar constantemente a alimentar-se. Agora, como é que elas não se sufocam a elas próprias quando estão a digerir a presa? Há um truque. Quando se estão a alimentar estas respiram pela traqueia que normalmente se localiza no fundo da garganta, mas que neste caso, foi empurrada para cima, especificamente para fora da boca! Alguma vez fizeste mergulho e tiveste que usar um tubo de snorkel? Bom, são bastante similares e têm a mesma função! Há que notar que depois de um alimento de grandes dimensões o volume corporal aumenta drasticamente e diminui a capacidade locomotora, estes fatores tornam-nas lentas, se estas se encontrarem perante uma situação de perigo em que têm que fugir, algumas espécies regurgitam presas recentemente ingeridas.

Na pitão, as mandíbulas são constituídas por dois ossos unidos por um ligamento elástico. Têm seis fileiras de dentes afiados e curvados para trás, duas fileiras na mandíbula inferior, duas na superior e duas no céu-da-boca! São animais dotados de crânios altamente otimizados para devorarem grandes presas, duas a três vezes mais largas do que a sua própria cabeça! Impressionante! Por vezes há conflitos entre pitões e crocodilos! E este sim é muitas vezes um confronto feroz. Porquê? Porque os crocodilos também são animais dotados de características extremamente impressionantes, sendo exemplos de uma enorme plasticidade para conseguirem predar e alimentar-se de animais igualmente grandes, digerindo-os agilmente. Alguns alimentando-se de gnus! E a força que têm quando desferem uma dentada? São predadores ferozes! E é por isso que vão ser tema do próximo artigo!

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